A moqueca (ou de como o processo pode ser divertido)

Abril, 20 2008

A busca

Mais um sábado ( 19/4/2008 ) em Alcatraz Campinas, e acordo com uma obsessão: fazer uma moqueca. Esta seria a grande meta para o dia! Acontece que, além de ter que preparar um notebook para a equipe de vendas (o que estava por me consumir todo o fim de semana sem que eu fizesse idéia), eu precisa de alguma aventura culinária (vejam bem que eu não digo “gastronômica” porque o resultado não interessa muito, mas “culinária” que se refere ao processo mais que ao resultado deste).

Assim, elaborei uma pequena lista com os itens a adquirir no supermercado aqui perto do flat e saí super empolgado, com minha lista no bolso. Bem no estilo “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”.

No supermercado em que fui, ingenuamente (olha ela aí de novo) esperando encontrato tudo o que precisava (e nem eram tantos itens assim), não encontrei o principal: peixe fresco (o “fesco” aqui refere-se ao fato de ele ter sido capturado, torturado e morto há poucas horas, e não tem nenhuma conotação sexual). O supermercado só tinha peixe congelado e isso, para mim, não era uma boa saída. Sequer uma saída.

Bem, não encontrando o peixe, eu ficaria impossibilitado de fazer a moqueca, é claro, mas como eu já havia posto na cesta todos os demais ingredientes (e até descobri um tal de “colorífico” que é a mesma coisa que “coloral”) eu já tinha ido longe demais. Não podia parar! Estava decidido: eu IA fazer a porra da moqueca!

Ao retornar para o hotel, descobri que tinha um supermercado fresco Pão-de-Açúcar aqui perto, e algo me dizia que se eu precisava de algo fresco, era lá que eu iria encontrar. Parti, então, em busca do famigerado peixe.

Chegando lá… melhor, eu não vou entrar nos detalhes do atendimento porque não é o foco deste post. Mas que eu tinha sangue nos olhos ao ser atendido por aquela múmia aquele senhor de forma tão pasmaceira, lenta serena, isso eu tinha. Mas o ódio, o rancor e o desejo de matar um não são bons sentimentos para se nutir num post que fala justamente de paz e moqueca.

Consegui a muito custo, comprar uma posta de cação, que não era a minha preferência, mas a moça que ajudava a múmia o senhor me convenceu dizendo “até tinha robalo e abadejo, mas acabou tudo. Vendeu muito bem hoje!”. “Vendeu muito bem”?! Como assim? Que horas são? Putz!! São 14:30h! Como alguém em sã consciência espera encontrar peixe fesco às 14:30h, por mais fresco sofisticado que seja o supermercado? Sobrou a posta de cação e seria ele mesmo a vítima.

A preparação

Segui para o hotel, com meu pequeno tesouro, para iniciar o ritual de cozinhamento cozinhação cozimento.

Os preparativos podem ser conferidos na prova abaixo:

Preparativos

Uma rápida explicação (da esquerda para a direita):

  1. Panelas vaidosas que queriam sair na foto a todo custo, nem que fosse “pisando” no pobre coitado do prato que lá estava;
  2. Meio pimentão;
  3. Uma cebola e três tomates fazendo pose;
  4. Um maço de cheiro verde (não sabia que cheiro tinha cor até hoje – agora eu vejo a luz!);
  5. Um limão partido ao meio (ou duas bandas de limão, se preferir); não, não era para a capirinha;
  6. Escondidos ao fundo: camarão e cação; (não sei se foi timidez ou cacaço medo que os fez se esconderem na hora da foto);

 

Como o cação e o camarão estavam meio tímidos e o cheiro verde (?) era novidade para mim, eles mereceram um close exclusivo.

Close no cheiro verde, no cação e no camarão

 

Agora, uma tomada invertida para ajudar a compreender a grandeza do espetáculo que se avizinha:

Tomada invertida da pia, para ajudar a compreender o espetáculo

 

A aventura

Como não é só de preliminares que se vive o prazer, vamos às vias de fato.

Coloquei o peixe e o camarão de “molho” no suco do limão e deixei quieto. Eu não sei bem qual era o objetivo desta etapa, mas minha esposa disse que deveria ser assim e eu não sou louco de discutir com ela.

Enquanto o camarão e o cação descansavam no limão, eu parti para os vegetais. Eram eles: o pimentão, o tomate, a cebola e o tal do cheiro verde.

Comecei pela cebola: veja só (no canto inferior-direito da foto) o que sobrou da pobre cebola. Só a casca.

O que restou da cebola

Não. Não foi só a casca. Eu descobri uma forma de se limpar a cebola antes de ralá-la: o segredo, para ela não desmontar na sua mão, é manter o “olho”(?!). Ou seja, a parte de onde saem as raízes você deixa, porque mantém as camada firmes para que você possa ralar sem que ela desmanche antes da hora. Assi, além da casca, sobrou o “olho” da cebola.

 

O "olho" da cebola 

Agora é a vez do cheiro verde (!) entrar em cena e virar tempero de verdade.

Primeiro, a organização: cebolinha pronta para o abate e salsinhas ansiosas à espreita:

 Cebolinha a postos e salsinhas ansiosas

As salsinhas furaram a fila e se descabelaram para sair na frente:

Salsinhas descabeladas

 

Agora, finalmente, todas juntas, unidas num só tempero.

 Todo mundo junto! 

 

Após a preparação do que seria o tempero da moqueca, eu parti para a organização da panela. É… panela também tem que ter organização.

Então coloquei: azeite pra caralho, tempero arisco e colorau colorífico.

A panela!

 

O arroz (que nem citei ainda porque era apenas um coadjuvante no meio de tantas estrelas) já estava quase pronto.

O arroz

Devido ao fato de eu ter me atrapalhado do momento em que terminei de organizar a panela em diante, a única foto que tenho é da coisa já toda montada. Na foto abaixo só se consegue ver o resultado, mas por baixo há (na ordem de baixo  para cima):

  1. Azeite com arisco e colorau colorífico;
  2. Posta de cação;
  3. Tempero;
  4. Camarão;
  5. Tempero;

 

A MOQUECA!

 

Na sequência: fogo na panela!

Veja que a cozinha já estava organizadíssima, exceto por uma sobra de salsinha que eu realmente não sabia onde colocar (eu não aceito sugestões).

Cozinhando

Cozinha arrumada, porque eu sou um amador mas sou limpinho.

Cozinha arrumada

Bem, nem tão arrumada assim, mas tudo lavadinho e pronto pra próxima.

O resultado, infelizmente, não foi registrado por imagens, mas posso dizer que ficou muito saborosa.

Algumas coisas eu aprendi nesta aventura:

  1. Não deixe para comprar peixe às 14:30h;
  2. Não use panela de alumínio para fazer moqueca (esta foi a primeira vez que eu preparei uma moqueca em panela comum de alumínio, e posso afirmar que há muita diferença daquela feita em panela de barro);
  3. Nunca deixe a salsinha para depois da cebolinha; as duas são muito competitivas e é foda muito difícil administrar o jogo de vaidades das duas;

Esta foi a aventura culinária do meu sábado.

Conte-me as suas aventuras culinárias também. E se quiser alguma dica de moqueca, é só dizer.

Vida longa!

 


O purê reformado

Abril, 20 2008

 

Escrever sobre o passado é muito complicado. Ainda mais quando este passado nos remete a uma cagada experiência traumática ou mesmo apenas negativa.

Pois acontece que no último domingo, 13/4/2008, eu me atrevi, uma vez mais, a fazer um purê de batatas. É.. essa seria A aventura de meu domingão aqui em Alcatraz Campinas! Ingenuidade, meu caro, ingenuidade. Ela é a mãe dos graves acidentes e madrinha dos decapitados acidentais.

Pois eu pus a batata para cozinhar e fui cuidar dos demais preparativos para aquele que seria (assim me sussurava a ingenuidade aos ouvidos) o meu super-almoço-de-domingo-com-purê-e-tudo-mais.

Após o cozinhamento cozimento da batata, parti para a parte mais divertida do purê (se é que um purê pode proporcionar alguma diversão além de saboreá-lo): a hora de amassar.

Purê amassado com creme de leite e margarina, apesar de eu não saber ao certo se poderia ser substituída por manteiga ou qualquer outra coisa (não, eu não aceito sugestões), e tudo seguindo conforme planejado. Entretanto, na hora do sal, eu inventei uma forma bem legal de lançá-lo sobre a massa de forma razoavelmente homogênea. Em vez de salpicar (que palavrinha mais fresca, não?)com os dedos, usei o saleiro de mesa. É!! Uma descoberta que fiz ao temperar ovos que estava fritanto.

Na minha terra há um ditado que diz que “de grão em grão a galinha enche o papo” (tudo bem, colegas de outras paragens, depois eu faço um post com a explicação deste regionalismo que trago em minha bagagem cultural capixaba). Então, devagarzinho eu fui mandando ver sal no purê. E continuava amassando, amassando, e a dama ingenuidade sussurrando em meus ouvidos: “mais um pouquinho de sal, meu amigo…só mais um pouquinho”. O resultado dessa sedução pueril foi que, ao término, o purê estava simplesmente incomível! Uma coisa que parecia ter vindo diretamente das profundezas do inferno mar de tão salgada.

Assim, como não se deve jogar comida fora, eu tinha que planejar uma virada nesse jogo que eu estava perdendo de 3 x 2. O que fiz? O que fiz? A-HA!!! Liguei para a minha esposa: “amor, como é que se tira o sal do purê?” e sua resposta, amorosa como sempre: “meu bem, é só colocar mais batata”. PUTA-QUE-PARIU! Como eu não pensei nisso NOSSA! Que ótima idéia! E não vou comentar que a lógica de minha mulher é melhor que a minha porque se ninguém percebeu não sou eu quem vai chamar a atenção para esta minha limitação. Vamos ao que interessa que é o purê.

BATATA!!! (este “batata” é aquela expressão que usamos para definir algo como certeiro, preciso).

Cozinhei mais batata e lancei sobre a massa do purê, conforme pode ser constatado pela prova abaixo:

Acréscimo de batatas ao purê que já estava "pronto"

A esta altura eu já estava verde de fome faminto e já estava tão puto chateado com o purê que não sabia se o terminava e comia ou o atirava daqui do sétimo andar (só pra ele aprender a não ficar salgado mais). Junto com as batadas adicionais, coloquei mais margarina e mais creme de leite, para manter as coisas equilibradas.

 Acréscimo da margarina e do creme de leite

 

Perseverei nessa briga até o fim e, para meu espanto, a coisa até que ficou decente.

Na foto abaixo, pode ser constatado o trabalho finalizado e assinado pelo artesão.

Purê reformado com assinatura do "chef"

Bem, o purê reformado ficou bom, contrariando todos os prognósticos contrários. Virada de jogo aos 45 do segundo tempo.

Da próxima vez, não vou usar o saleiro. ELE, na verdade, é que foi o culpado de eu ter almoçado às 17:00h naquele domingo ensolarado.

Vida longa!