A moça, o ônibus e o samba

Fevereiro, 16 2007

Era uma segunda-feira e eu me dirigia ao ponto de ônibus que fica próximo à igreja de São Judas. Minha missão era pegar o 675-A, que me deixa na frente do prédio em que trabalho.

A fila já contava com umas oito pessoas. A última delas, uma moça aparentando uns 23 / 25 anos, não parecia muito segura sobre estar na fila ou não. Então, eu a perguntei: “Você está na fila?”. Quando ela virou-se para me responder, eu percebi que seu ponto de equilíbrio mudava constantemente, obrigando-a a corrigir a sua vertical com agilidade. Sua resposta foi alguma coisa que eu não entendi, mas preferi acreditar que ela estava, sim, na fila. A questão da mudança do centro de gravidade, pelo que pude observar, devia-se ao cheiro de álcool que estava ao redor dela. Não posso afirmar com certeza se o álcool estava dentro dela, mas ao seu redor havia um forte odor da substância.

Alguns minutos em silêncio e a moça vira-se para mim, novamente, disparando: “Será que todo mundo aqui vai trabalhar?”.
Essa pergunta me fez pensar: “como alguém pode, às 8:00h, ter dúvidas sobre o destino de tanta gente que segue, em conjunto, um mesmo trajeto”. Afinal, era uma segunda-feira. Normalmente, às segundas-feiras às 8:00h, a maior parte da PEA (População Economicamente Ativa) encontra-se a caminho de seu trabalho.

E eu respondi que acreditava que sim.

Na sequência, veio a explicação: “É… ontem eu fui pro sambão… Você sabe como é, né? Sambão é foda!”. Neste momento tudo ficou claro… o álcool estava dentro dela, sim. Não estava ao redor. E ela estava embriagada (bêbada, chapada, ou coisa que o valha).
Eu respondi “é… eu acho que posso imaginar…” meio sem-graça. Pois não sabia direito como conduzir aquela conversa.

Ela entrou no ônibus e desceu dois pontos depois.

Seu centro de gravidade continuava oscilando… Ela, realmente, parecia bêbada.

Sambão é foda!


A decisão, a indecisão e o paradoxo

Fevereiro, 13 2007


Há um dito popular (bem não sei se é tão popular assim, mas eu já ouvi alguns notáveis usando esta expressão) que diz: “Quem decide pode até errar. Quem não decide, já errou”. Entretanto, há um paradoxo nesta afirmação.
Partindo do princípio de que ninguém quer errar, a assertiva promove um trabalho “motivacional” no indivíduo. Sugere veementemente que ele decida, uma vez que, não decidindo, incorrerá em erro mais grave que tomando algum posicionamento.
A coisa começa a complicar se avaliarmos que o transmissor da mensagem, aparentemente, sugere a você que “erre”, mas “erre menos”. Decidir é uma forma de “errar menos”. Olhando por este ângulo, podemos pensar que ele está querendo te dizer que você deve relaxar; que deve entender que errar é humano, mas a estagnação é o pior de todos os erros. É quando a gente deixa o medo nos congelar. Mas, se por um lado, para fugir do “medo ruim” e partir para o “medo bom”, você tem que decidir; se o ato de decidir vai dividir a sua vida entre um erro (o de “não decidir”) e outro (o de “decidir” pela opção equivocada), você volta ao ponto em que estava no início. Ou seja, se eu não decidir, eu estou entre um tipo de erro e outro. Se eu decidir, eu também estou entre um tipo de erro e outro.
Para aliviar toda a carga emocional que uma eventual tomada de posicionamento pode nos trazer, o transmissor insiste na idéia de você não ser tão perfeccionista. Insiste em que você pode errar, pois é assim que a gente aprende; e que errar decidindo tem um valor, errar sem decidir tem outro, etc, etc, etc… Assim, polidamente, ele te diz: “Cara, decida! O resto que se exploda!”.
Bom, se eu não tenho que me preocupar com o “resto” e devo cometer erros em nome da tomada de decisões, posso muito bem, também sem me preocupar nem um pouco com o “resto”, errar simplesmente “não decidindo”.
Assim, chega-se à conclusão inequívoca de que, decidindo você erra, não decidindo você erra também, mas que você tem que decidir se vai decidir ou não.
Neste momento, lembramos que a natureza possui uma característica intrísseca que a direciona sempre à economia. A água sempre flui pelo caminho mais fácil, os pássaros se agrupam para facilitar a aerodinâmica e poupar energia durante longos vôos, os ursos hibernam para não consumirem desnecessariamente seus recursos caçando em uma temporada de escassez, e por aí vai.
Então, tomando como base o estudo acima, e acrescentando a premissa natural da economia, surge a pergunta: “Por que raios você tem que decidir?”
Você não vai errar do mesmo jeito? Decidir é uma ação, e consome energia que deve ser poupada. Por que decidir? Por que essa obsessão em errar de um jeito e não de outro? Por que o transmisso diz isso a você, quando poderia poupar seus comentários? São muitas as perguntas sem respostas…

Então, essa coisa toda pode ser encarada de uma nova maneira: “não decida”, erre do mesmo jeito, e colabore com a natureza.

Um abraço,
Paris