
O Parnasianismo foi um movimento literário iniciado na França nos idos de mil e oitocentos e lá vai alguma coisa, e que desembarcou no Brasil por volta de 1877 na bagagem de Artur de Oliveira. Uma das características relevantes do movimento, imortalizada na expressão cunhada por Théophile Gautier (“arte pela arte”) era a proposta de uma arte voltada aos aspectos estéticos, determinada a impor uma revolução formalista sobre os elementos menos importantes da produção artística, incluindo qualquer tipo de “mensagem” da obra que não fosse estritamente a competência técnica do autor.
Pois bem. Conta a história que este movimento começou a perder força e acabou sendo suprimido pelo modernismo.
Mas eu não quero falar de Parnasianismo e muito menos de Modernismo (ao menos neste post), e não vou me demorar para demonstrar o que realmente pretendo com essa cantilena toda.
Ocorre que, em pleno alvorecer do século XXI, cem anos após sua derrocada, a proposta parnasiana parece encontrar abrigo justamente no recôndito ideológico daqueles que se proclamam os mais modernos dos modernos: o povo da tecnologia. É… esse povo do qual você e eu fazemos parte.
Tenho observado o povinho exultando a cada novo artefato que aprende a preencher. O processo de trabalho tornou-se um monstro. Uma máquina tão pesada que não cumpre a sua função. Aliás, ninguém sabe mais qual é a função do processo, uma vez que atender às suas demandas tornou-se uma liturgia que não se pode questionar sob pena de demonstrar alguma ignorância ou mesmo uma certa inadequação, um desajuste em relação ao meio.
Pois bem, temos um processo rigorosamente documentado, farta documentação disponível, temos todas as exigências das malditas normatizações (dê a elas o nome que desejar) atendidas. E agora? E o homem? Onde está o elemento fundamental de todo esse teatro? Onde está o servir? Onde está o fim de todo esse cerimonial? Se todo esse material não serviu para atender ao homem, atirem-no ao lixo, pelo amor de Deus! Se qualquer linha foi escrita sem ter um objetivo claro (e eu afirmo que este objetivo é o homem), que seja eliminada.
A técnica (e seus adereços) tornou-se um fim em si própria. Tudo é feito em nome da técnica. As etapas são cumpridas em nome de uma pseudo-qualidade, pois é falsa a qualidade percebida na medida em que objetiva ser boa “em si”, quando deveria ser boa “para o outro”. E é falsa porque nem “em si” consegue ser boa, uma vez que, no caos de tantas exigências da doutrina, o próprio fiel se perde e já não consegue fazer corretamente aquilo que tinha como objetivo fazer.
A Tecnologia da Informação está tentando tornar-se arte num parnasianismo tecnológico infernal em que vale a “técnica pela técnica”. Em que se esquece a mensagem e o receptor para exaltar o veículo e o emissor. Envergonha-se de seu passado artesanal, quando só tinha um (e aparentemente inútil) objetivo: atender ao homem.
O tiro saiu pela culatra, meu caro: na ambição por deixar de ser artesanato e passar a ser arte, a tecnologia da informação está se transformando em apenas mais uma atividade burocrática que, em lugar de servidores com nobres ideais passa a contar com um bando de bonecos autômatos que passam seus dias preenchendo formulários.
Que triste caminho.
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Escrito por Luciano Paris
Escrito por Luciano Paris
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