Eu gostaria de saber que estranhas, ocultas e poderosas forças do além movem uma pessoa a ligar o celular quando a aeronave mal tocou o solo. Talvez sejam as mesmas forças que fazem as vacas voarem nos pesadelos lissérgicos.
Chegando agora de Vitória, no vôo 1657, eu presenciei o idiota que estava ao meu lado pedindo, insistentemente, à sua esposa (eu acho que era esposa, porque ela colocava a mão “procurando” as dele, mas o mastodonte ficava impassível, com os braços cruzados. Se ela fosse namorada ou amante, ele não apostaria nesta indiferença) que lhe passasse seu celular. Quando “aportamos” no finger, o babaca cidadão me liga a porra porcaria do celular que, por sua vez, começa a apitar (aqueles avisos de recebimento de mensagens), e ele (o babaca cidadão) começa a narrar: “9973 32xx, Fulano de Tal”.
Realmente, eu imagino que este “Fulano de Tal” deva ser alguém muito importante para que o babaca a azêmola quisesse ter sua imagem vinculada à dele. É como se dissesse: “Vejam só! EU recebo ligações do FU-LA-NO-DE-TAL”.
E novas mensagens continuavam chegando: avisos de mensagens recebidas off line, avisos de ligações perdidas, etc.
A certa altura, a moça, que já era merecedora não de minha admiração, mas de minha compaixão, também liga o seu celular que, a seu turno, também começa a apitar. Mas eu acho que a dona tinha algum problema auditivo (ou deveria trabalhar em uma oficina de funilaria) e colocava o volume da campainha no máximo.
O povo da fileira de trás, uma turma de jovens bastante animada, porém civilizada, começa: “Êpa. Olha o celular! Olha o celular!”
E ficava eu ali, pensando em como mandar aqueles dois desligarem aquelas maquininhas infernais. Mas sem muitos argumentos, porque eu também não tenho certeza se o que eles estavam fazendo era totalmente errado.
Em minha cabeça, o regulamento é muito claro, mas porque para algumas pessoas a coisa parece nebulosa?
Eu explico o porquê. É porque o regulamento também tem os seus problemas, quando diz (no momento do embarque) que “os celulares poderão ser usados enquanto a aeronave estiver no solo, com as portas abertas e os motores desligados”. Assim, ao chegar no destino e depois de mais de uma hora sem falar ao telefone, as pessoas e as não-pessoas também, se sustentam no fato de que o avião está “com as portas abertas e motores desligados”, para poderem saciar sua obsessão por falar ao telefone.
Outra incoerência do regulamento é que, durante o embarque, mesmo permitindo que se utilize o celular dentro da aeronave “com as portas abertas e os motores desligados”, é recomendado que, ao sair da sala de embarque em direção à aeronave, o passageiro desligue o seu celular.
Então, vejamos:
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Quando estou na sala de embarque, posso usar o celular;
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Quando saio da sala de embarque, tenho que desligar o celular;
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Quando estou dentro da aeronave “com as portas abertas e os motores desligados”, eu posso usar o celular;
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Durante o vôo eu NÃO POSSO usar o celular;
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Após a aterrissagem eu continuo não podendo usar o celular;
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Ao aportar no finger, com “as portas abertas e motores desligados”, eu posso usar o celular;
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Ao sair da aeronave em direção à área de desembarque, eu não posso usar o celular;
É MUITA confusão pra cabecinha do cidadão, não é? Como é que o cabra vai dar conta de tanta informação de uma só vez, e em um só vôo? Deveria haver um folder com essa combinação de regras, que fosse distribuído ao indivíduo no momento do check-in e fosse feita prova oral (não.. não é o que você está pensando) no momento do acesso à sala de embarque.
Enquanto as coisas não ficam claras, os “espertos” se utilizam do benefício da dúvida e usam a porra porcaria do celular seja lá com portas abertas e motores desligados, portas fechadas e motores desligados, portas abertas e motores ligados, portas fechadas e motores ligados.
E tudo isso por um único motivo: as estranhas, ocultas e poderosas forças do além que fazeem as vacas voarem.
Vida longa!